Antes de mais nada, como a maioria dos leitores deste blog me conhece pessoalmente e pode ter ficado preocupada com o título, já adianto que essa história termina bem.
Ainda sobre o título deste post: é uma referência ao Gato de Schrödinger, um experimento mental usado para explicar o paradoxo da superposição em física quântica. Em resumo, um gato é colocado em uma caixa fechada com um dispositivo radioativo que pode ou não ser ativado, matando-o.
Enquanto a caixa não é aberta, o gato está simultaneamente vivo e morto. Para ter certeza, só abrindo a caixa e vendo com os próprios olhos.
No reino quântico, isso se aplica a partículas que podem estar em múltiplos estados ao mesmo tempo. Eu peguei emprestado esse experimento para explicar o que eu vivi nos últimos meses, nos reinos de São Paulo, Florianópolis e até da Grécia.
No início era só um espermograma
Tudo começou em setembro de 2025. Minha senhora e eu havíamos decidido, já havia algum tempo, que tentaríamos ter um filho. Ela estava fazendo as devidas consultas médicas e preparando o corpo, enquanto eu só tinha uma coisa a fazer: um espermograma para saber se eu podia ser pai.
Quem fez a requisição, inclusive, foi a ginecologista da Manu. Ela ficou na gaveta por mais de um mês, até que no dia 16 eu tomei vergonha na cara, fui até um laboratório e fiz o que tinha que fazer.
Já no dia seguinte, entrei no sistema e os resultados pareciam bons. Mesmo para um leigo, ficava claro que eu era fértil. No entanto, alguns números e porcentagens ali pediam mais explicações. O ideal, obviamente, seria agendar uma consulta com um urologista.
O duro é que iríamos viajar para o exterior no dia 30 de setembro, então eu pensei em deixar para a volta, só já quase em novembro. Antes disso, ainda estaríamos em Florianópolis entre 25 e 28 de setembro.
Só por desencargo de consciência, entrei no site do plano de saúde. O critério era muito claro e altamente científico: se eu achasse um médico fácil de chegar a pé ou de metrô aqui em São Paulo, e que tivesse horário disponível logo, agendaria. Sendo menos maloqueiro, eu também filtrei os doutores que tinham um selo “plus” do plano, dado a profissionais que cumprem alguns pré-requisitos de currículo e qualidade de atendimento.
Mas eu estava tranquilo, pois era só para avaliar a qualidade dos meus espermatozóides. Eu queria saber se eram bons nadadores e se tinham a cabeça no lugar.
A primeira consulta com o urologista
Consegui uma consulta para o dia 22, em um consultório a 10 minutos de casa, com um urologista que também atendia no Hospital Albert Einstein. A combinação ideal, portanto.
Ele avaliou os resultados do espermograma como positivos. Fez a ressalva de que, em combinação com a minha idade, a motilidade e o formato da cabeça dos meus garotos poderiam gerar alguma dificuldade, mas nada que fosse preocupante.
O doutor fez, também, o exame físico. Ao apalpar, achou que havia um cisto no testítulo esquerdo. No direito, nada. Ele me deu uma solicitação de ultrassonografia escrotal com doppler para confirmar. Recomendou que eu fizesse com um médico de confiança dele no Fleury.
Mais uma vez, eu quase deixei para marcar só depois das viagens. Para complicar, entrei no site do Fleury e achei que não era possível selecionar um profissional específico para o exame. Voltei ao critério “dá para chegar caminhando” e marquei um horário no laboratório Alta para o dia seguinte.
No exame, a médica encontrou, de fato, um cisto pequeno no testículo esquerdo. Ao olhar o direito, achou que também tinha encontrado um cisto. Depois de alguns segundos, comentou: “hum… tem um nódulo aqui, você vai ter que acompanhar”.

Surgia assim o Nódulo de Schrödinger, me pegando literalmente com as calças arriadas.
Já levemente em pânico, mandei um WhatsApp para a secretária do meu urologista. Ele respondeu que precisava esperar o laudo, que só sairia no dia seguinte.
Foi quando comecei minha relação com o ChatGPT.
Os primeiros exames
Um aviso: a partir deste momento, vou contar algumas decisões minhas que não foram as melhores, mesmo que, no fim, tenha dado tudo certo. Naqueles primeiros dias, elas foram tomadas sob a influência do medo, o que é natural, mas também da pressa em saber se eu precisaria cancelar as viagens. Em resumo, não faça o que eu fiz.
Naquela noite, o laudo da ultrassonografia escrotal já estava no sistema do Alta. O primeiro de vários laudos dos meses seguintes. Estava escrito lá: ”formação nodular arredondada e hipoecogênica, de contornos regulares, medindo 0,6 x 0,4 x 0,5 cm, com sinais de captação de fluxos periféricos e centrais ao estudo Doppler.”
Após passar a noite em claro, marquei uma consulta virtual pelo aplicativo de um hospital credenciado na manhã de 24 de setembro. Eu já tinha lido, visto vídeos e conversado com o ChatGPT o suficiente para julgar que sabia quais exames pedir à médica que me atendeu.
E também para saber que um nódulo testicular só pode ter o diagnóstico definitivo de malignidade ou benignidade, com total certeza, após ser retirado cirurgicamente do corpo.
Durante a chamada em vídeo, expliquei a minha situação: o nódulo, o medo e as viagens. Perdi a vergonha na cara e listei os exames que eu, enquanto especialista em mim mesmo, queria. Ela analisou o laudo, foi muito empática, conversou comigo, passou tranquilidade quanto ao que viu no exame e, minutos depois, me enviou as requisições.
Era aquilo mesmo: uma ressonância magnética de pelve e abdômen e exames de sangue de marcadores tumorais (alfa fetoproteína, gonadotrofina coriônica e desidrogenase láctica). Consegui marcar tudo para o mesmo dia em outra unidade do Alta, que ficava em uma distância não caminhável.
As prioridades mudavam rápido naqueles dias.
O primeiro diagnóstico
No fim da tarde, meu urologista me ligou para falar da USG. Disse que era um nódulo muito pequeno, o que era uma boa notícia, mas que todo nódulo testicular é preocupante: mais de 90% são malignos. Na minha cabeça, era certeza de câncer. E fazia sentido estatístico.
Para completar, o cenário mais provável era de cirurgia para remoção total do testículo. Nada emergencial, mas era preciso muita cautela. “Com as informações que temos agora, eu não posso recomendar que você viaje para a Europa e fique quase um mês fora”, completou.
Contei ao doutor que tinha pedido os outros exames por conta própria. Ele não gostou. Explicou que a ressonância magnética precisava ser de um tipo mais específico e que o convênio poderia negar um novo pedido, já que seria uma muito perto da outra.
Então, além do medo da doença, eu ainda fiquei temendo atrasar o diagnóstico por ter me precipitado no pedido.
O médico, até por notar meu estilo um tanto quanto paranóico, tentou me acalmar desde o começo do tratamento. Recomendou que eu fosse para Florianópolis no dia seguinte, sem problemas, e que tentasse descansar a cabeça.
Obviamente eu não consegui cumprir essa última parte do combinado.
Ainda naquela noite, saíram os resultados dos marcadores tumorais: tudo negativo. E isso era bom, no caso. Não eliminava a possibilidade de malignidade, mas indicava que era um tumor em estágio bem inicial e que era muito improvável ter havido qualquer metástase.
Eu tinha e não tinha câncer ao mesmo tempo.
A ida para Florianópolis
Então, eu e minha senhora fomos para Florianópolis. Nesse meio tempo, consegui marcar uma nova RM para a volta a São Paulo, no dia 29, no Einstein. E também nesse meio tempo saiu o resultado da primeira ressonância.
Ela trazia a boa notícia de que não havia qualquer sinal de espalhamento, nem nos linfonodos. Por outro lado, estava lá no laudo: “nódulo vascularizado no testículo direito, suspeito para lesão neoplásica primária.”
Lesão neoplásica quer dizer um potencial câncer, enquanto primária indicava que o médico radiologista acreditava que ele se originava ali mesmo. Dos males o menor.
A verdade é que, no geral, os primeiros laudos traziam “boas notícias”, bem entre aspas. Lembro de ter chorado de alívio relatando esses resultados, principalmente os marcadores tumorais, para a Manu. Ela chorou e riu comigo nesses meses todos.
Já em Floripa, contei para os meus irmãos — presencialmente e por telefone — tudo o que estava acontecendo. Eles sempre se mostraram confiantes e me tranquilizaram.
Mesmo assim, no sábado (27), dei uma leve surtada de novo e fui parar na Ultralitho, tradicional emergência urológica no Centro da cidade. Eu precisava de uma segunda opinião, qualquer que fosse. Ou terceira, se você contar minha enorme e profunda conversa diária com o ChatGPT.
O médico plantonista que me atendeu se juntou ao coro dos tranquilizadores. Analisando todos os laudos, afirmou que era no máximo um nódulo maligno inicial e que eu tinha um bom tempo de segurança para fazer a cirurgia.
Ele contou que atendia em hospitais públicos, onde era comum aparecerem homens com tumores testiculares do tamanho de uma laranja. A vergonha e o preconceito faziam com que deixassem para procurar ajuda quando, invariavelmente, já era tarde demais.
“Mas olha só, às vezes a gente salvava até esses casos, então imagina o teu que só tem meio centímetro, cara! Vai dar tudo certo”, disse o querido.
Eu voltava um pouco mais animado para São Paulo.
A quase não-ida para a Europa
Mesmo com os prognósticos positivos, eu cogitei cancelar a viagem para a Europa. Hoje sei que não faria sentido, mas meu medo criava um cenário do tipo “nossa, eu vou morrer porque fui passear ao invés de me tratar”. Não era factível, mas a perspectiva da morte despertou coisas estranhas em mim nesse período todo, não só naquele momento.
A Manu sempre foi confiante e trouxe boas reflexões. Ela me puxava para acreditar no que o médico estava dizendo e seguir o protocolo de acompanhamento. Mas, principalmente, seguir a vida.
Na volta para São Paulo, fiz uma nova consulta com o urologista, que nos liberou para viajar à Europa. Só sugeriu que encurtássemos um pouco a viagem, o que fizemos.
O doutor também reforçou que, como eu e a Manu queríamos engravidar, o melhor a se fazer era monitorar o nódulo, postergando a cirurgia. Era seguro fazer isso. Ele também sugeriu que eu congelasse sêmen.
Ainda naquele dia, fui até o Einstein fazer a ressonância magnética multiparamétrica. Ela é diferente por avaliar mais quesitos ligados a lesões tumorais, trazendo informações mais completas para traçar um cenário mais concreto. É como se, além das fotos da RM normal, ela gerasse um “vídeo” do funcionamento celular e vascular do nódulo.
Assim como a primeira USG, a RM foi feita por uma médica e uma técnica. Ambos os exames envolviam manipulação do pênis e do saco escrotal. Eu não senti nenhum constrangimento, apenas gratidão por elas estarem ali para me ajudar.
Aliás, as mulheres passam por isso desde sempre, sendo atendidas por homens — com o agravante da vulnerabilidade física.
O diagnóstico definitivo do nódulo de Schrödinger
Mais uma vez, o laudo veio com boas notícias. É sempre preciso botar essa definição em perspectiva, pois a notícia que eu esperava era “pôxa, não tem nódulo nenhum aqui, não sei o que houve no outro exame.”
Claro que isso não ia acontecer. Mas vieram algumas boas características: “nódulo sólido ovalado, margens regulares, hipossinal em T2, sem restrição à difusão, realce hipervascularizado homogêneo.”
Tudo isso era bom, sinalizando que, caso fosse um nódulo maligno, era bem inicial e não tinha nenhuma característica clássica de agressividade.
Esse resultado a gente recebeu já na Europa, no dia 2 de outubro, pelo app do Einstein, outro companheiro constante dessa jornada. Acho que naqueles dias abri mais os aplicativos de laboratórios do que o Instagram ou o WhatsApp.
Havia então o diagnóstico definitivo até que eu decidisse retirar o testículo para o exame anatomopatológico: eu tinha câncer, mas também não tinha ao mesmo tempo.
E era com isso que eu teria que aprender a lidar nos meses seguintes.
Daqui a alguns dias vou publicar a parte 2. Mas lembre-se: tudo acaba bem.
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