Beethoven, Stockhausen e Bach contra um sujeito de chinelo na Sala São Paulo

No último domingo (8), fui à apresentação final da abertura da temporada 2026 da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. O local foi a maravilhosa Sala São Paulo, uma das melhores salas de concerto do mundo.

O programa contou com Gruppen, de Karlheinz Stockhausen, Fantasia e Fuga em dó menor, de Johann Sebastian Bach com orquestração rara de Heitor Villa-Lobos, e a Sinfonia nº 9em ré menor de Ludwig van Beethoven. Essa última mesmo eu, você e todas as outras pessoas culturalmente rasas conhecemos pelo movimento final lindíssimo: “Ode à Alegria”.

Se não está ligando o nome à peça, ela é tocada gloriosamente quando Hans Gruber e seus comparsas abrem o cofre do Nakatomi Plaza em Duro de Matar:

Foi uma experiência especial ouvir e ver ao vivo uma das maiores obras-primas da humanidade, composta por Beethoven há pouco mais de 200 anos. A abertura também foi interessante, embora menos agradável. Depois descobri que essa era a ideia.

Desagradável foi a postura de uma parte ínfima do público, mas como eu sou partidário do Tribunal de Minúsculas Causas, são coisas que me incomodam e desviam a minha atenção. Por exemplo: tinha um cara de chinelo na plateia. Não dá.

Mas primeiro vamos falar de música.

A programação da abertura da temporada 2026 da Osesp

A apresentação da Osesp se iniciou com uma obra difícil, em todos os sentidos. Stockhausen compôs Gruppen nos anos 1950, em um mundo pós-guerra: dividido, em busca de caminhos e espantando com a ascensão da tecnologia.

O nome é porque a orquestra é dividida em três grupos independentes, cada uma com seu regente. Eles ficam em volta do público, mudando a percepção sonora. A acústica da Sala São Paulo seria ideal para a estreia de Gruppen no Brasil, por isso a escolha da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Às vezes, tocavam em andamentos diferentes, exigindo coordenação entre condutores. Era confuso, mas esse era o plano de Stockhausen e havia lógica. A revistinha com o programa trouxe uma descrição que eu seria incapaz de escrever:

Em vez de uma melodia contínua ou de progressão linear fácil de acompanhar, a obra é construída a partir de blocos sonoros distintos que surgem, se sobrepõem, se chocam ou desaparecem, criando uma música cheia de contrastes, surpresas e mudanças bruscas: adultos e graves, curtos e longos, fortes e suaves. A escuta, portanto, não é previsível, mas dinâmica e sempre em movimento.

No fim, acho que era preciso um ouvido mais treinado que o meu para apreciar, coisa que os habitués da Sala São Paulo certamente têm. E está tudo bem, foi uma experiência interessante. É bom expôr o nosso cérebro a uma dinâmica diferente de vez em quando.

O crítico musical e ex-editor de Esportes do jornal O Globo (eu adoro essa combinação), Márvio dos Anjos, explicou melhor no Instagram dele por que é difícil gostar de Gruppen:

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Um post compartilhado por Márvio na Música | Ópera e Clássica (@marvio.musica)

Depois de Stockhausen, os “normais” Bach e Beethoven

Ao fim da primeira parte, Thierry Fischer, um dos condutores e também diretor musical da Osesp, vai para a frente do palco (de costas para o público) e passa a reger toda a orquestra. Apenas uma nota grave fica ressoando na transição para Fantasia e Fuga em dó menor, de Bach.

Trata-se de uma composição para órgão, mas que foi adaptada pelo brasileiro Heitor Villa-Lobos. Depois do caos, ela oferece uma certa calma, com um estilo mais familiar para os não iniciados como eu.

Essa música durou menos de dez minutos. Em seguida, um intervalo permitiu a desmontagem dos palcos paralelos de Gruppen, que ficaram sobre parte das cadeiras, voltando à configuração original da Sala São Paulo.

Deu para tomar um cafezinho e comer um ótimo pão de queijo. Aliás, há várias estruturas de alimentação no local, permitindo que o público faça uma boquinha com relativa agilidade.

E aí fomos para os 65 minutos da Nona Sinfonia de Beethoven. Mas antes, vamos ao chinelão.

Osesp na Sala São Paulo
A orquestra completa com o coro e os cantores solistas para Beethoven

Tinha um sujeito de bermuda e chinelo na Sala São Paulo

A Sala São Paulo não tem código de vestimenta, o que é ótimo sob a perspectiva da democratização do acesso à música erudita. Quando vou lá, coloco uma camisa e uma calça normais e, no máximo, um sapatênis. Só não fico mais elegante que os senhores de blazer e senhoras com roupas de grife. 

Nada de trajes sociais, pois ninguém acha que estamos na Ópera de Paris em um evento de gala no fim do século 19. 

Daí a ir de bermuda e chinelo, como um sujeito que estava próximo a mim foi, é um enorme salto. E não, o cara não era pobre. Era aquele tipo clássico de certas áreas de São Paulo que se veste mal como uma declaração de princípios ou uma provocação.

E também não era jovem, mas um marmanjo já por volta dos seus 40 anos. Ok, meu filho, não precisava ser um sapatênis, mas uma calça e um tênis já resolvia. Ou uma bermuda com aparência de ter sido lavada, vá lá.

Havia ainda uma meia dúzia de jovens com camisetas do tipo regata ou machão de academia. Sim, eram sempre homens as pessoas que se destacavam no quesito “vou incomodar os outros pelo jeito como eu me visto neste lugar careta”. 

Claramente funciona, afinal estou escrevendo essas linhas. 

O ponto é que acho um desrespeito com os músicos, todos arrumados com trajes pretos e sóbrios. Uma galera que estudou décadas para estar na orquestra mais importante do país tocando em uma das melhores casas de concertos do mundo, mas quem tem que chamar a atenção é você, que teve preguiça de tomar banho e foi ver uma das maiores obras-primas da história da humanidade com a roupa fedida com a qual foi dormir depois da balada.

Esse sujeito conseguiu me irritar mais que outro que resolveu ver vídeos no celular durante a apresentação, mas esqueceu que o áudio estava ligado. Foi repreendido pela própria mãe, o que é mais humilhante. Porém, claramente não foi de propósito. O cara de chinelo estava lá como uma performance individual.

E o pior é que o hipster ou mendigo nem sabe da minha existência, é claro. Só mesmo a “Ode à alegria” na Sala São Paulo, um dos meus lugares preferidos na cidade, para elevar o espírito.

Da desilusão com o mundo (e o chinelo) até a ode à alegria

“Ode à alegria” é um poema escrito pelo alemão Friederich Schiller em 1785, pelo qual Beethoven nutria grande apreço. De acordo com o livreto da Osesp, ele tentou musicá-lo desde o fim do século 18, entusiasmado com o progresso que viria a partir da Revolução Francesa (1789-1799).

Com o tempo, a coisa não foi tão para frente assim, as antigas dinastias foram restauradas e o velho Ludwig van – que ainda ficou surdo no período – compôs os três primeiros movimentos meio chateado com as coisas todas.

A melodia final vai aparecendo timidamente durante a sinfonia (pelo menos eu tive essa impressão), tentando vencer o baixo astral. O quarto movimento irrompe então com otimismo e esperança, com a orquestra se entregando ao entusiasmo e ganhando a companhia de quatro solistas vocais, que pedem sons mais felizes. Literalmente, no caso, é o começo da letra.

Aí, quando você já está começando a sentir que a humanidade é incrível e pode produzir coisas maravilhosas, o coro de mais de cinquenta vozes chega sem pedir licença e celebra a vida e a bondade dos homens. É a “Ode à alegria”!

A música realmente desperta uma alegria intensa naquele momento. É de uma beleza inexplicável essa transformação de sons em sentimentos positivos e bons. 

Você pode assistir à apresentação na íntegra no canal da Osesp, no vídeo abaixo. A Nona Sinfonia de Beethoven começa por volta de 59 minutos, e o quarto e último movimento em 1h43, caso você queira ir direto para a glória. 

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