Nostalgia é uma droga muito boa. Talvez seja a única — ou ao menos a mais forte — que os cinquentões irmãos Gallagher usam hoje em dia, depois de anos de loucuras. No show do Oasis, no último sábado (22), eles a distribuíram aos 65 mil fãs presentes em doses que derrubariam o mais cínico dos mamutes.
Eu estava lá e devo confessar: fui um dos usuários mais entusiasmados. Agora estou sofrendo com a síndrome de abstinência, me enganando com o Spotify.
Para completar, a turnê de retorno da banda foi uma celebração dos anos 90, quando Noel e Liam eram os verdadeiros reis da Inglaterra. Após mais de uma década e meia separados, eles decidiram voltar e fazer shows em que praticamente só tocam músicas lançadas entre 1994 e 1998.
Assim, eu estava preparado para fortes emoções, relembrando os clássicos dos discos Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory, além das favoritas da coletânea de lados B The Masterplan. Até as duas do famigerado Be Here Now e a única dos anos 2000, “Little By Little”, estavam na ponta da língua para a minha interpretação desafinada.
O que eu não esperava é que aquela noite fosse de comoção, muito além da emoção, e que as letras que eu cantei a plenos pulmões voltassem a significar tanto para o Bruno quarentão. E significar coisas diferentes.
O Bruno adolescente estava lá comigo no Morumbi e ficou feliz, é claro, porque ele foi importante para formar quem eu sou hoje, mas ao mesmo tempo sabe que o tempo dele já passou.

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Quantas pessoas especiais, como nós mesmos, mudam
Eu não tenho a pretensão de dizer, aqui, que a minha experiência pessoal com o show do Oasis foi necessariamente a mesma de todo mundo que estava lá. Mas tenho absoluta certeza que de grande parte foi sim. Ao menos dos quarentões para cima.
A adolescência, quando a maioria de nós começou a ouvir os irmãos Gallagher, é a época da intensidade e dos sentimentos exasperados. É quando começamos a experimentar de tudo, e depois de meia dúzia de tristezas achamos que carregamos toda a dor do mundo nas costas. Bate a certeza de que já vivemos todas as grandes emoções possíveis, que somos adultos formados, com toda a experiência gerada pelas reflexões no travesseiro.
Eu nem imaginava que chegaria aos 40 rindo — com ternura — do Bruno daquela época, mas ao mesmo tempo tendo a mesma soberba que ele tinha.
Enquanto cantava junto no show as músicas de quando eu era guri, as letras iam batendo de uma forma diferente.
“How many special people change?
How many lives are livin’ strange?
Where were you while we were getting high?”
Eu ia percebendo que, ainda mais após um ano particularmente muito difícil, a vida estava dando um jeito de me fazer olhar para ela com os olhos de quem ainda tem muitas coisas pela frente, tanto boas quanto ruins. E para eu levar isso com leveza.
“Some might say that sunshine follows thunder
Go and tell it to the man who cannot shine
Some might say that we should never ponder
On our thoughts today ‘cause they hold sway over time”
Também iam surgindo sentimentos de que algumas coisas que eu não tinha sabedoria para encontrar ou simplesmente não vivi na adolescência, como uma vocação ou o amor, estavam sendo desfrutadas provavelmente no momento certo.
“Now that you’re mine
We’ll find a way
Of chasing the sun
Let me be the one who shines with you
In the morning we don’t know what to do
We’re two of a kind
We’ll find a way
To do what we’ve done
Let me be the one who shines with you
And we can slide away”
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Tem coisas que só acontecem em um show (do Oasis)
Talvez sejamos injustos como os nossos eus adolescentes. Eles eram meio burros, claro, mas se permitiam sentir com o coração e se emocionar com canções sobre vidas que mal entendiam.
Ficavam felizes e sofriam intensamente por coisas que hoje parecem bobas, mas que eram o ápice existencial de uma época de ebulição interna (e às vezes externa). Porém, será que, caso tenhamos a sorte de chegar aos 60, 80 ou 100 anos de idade, não vamos pensar a mesma coisa dos nossos eus quarentões?
“Maybe I don’t really wanna know
How your garden grows
‘Cause I just wanna fly
Lately, did you ever feel the pain
In the morning rain
As it soaks you to the bone?
Maybe I just wanna fly
Wanna live, I don’t wanna die
Maybe I just wanna breathe
Maybe I just don’t believe
Maybe you’re the same as me
We see things they’ll never see
You and I are gonna live forever”
Ir ao show do Oasis não foi apenas uma catarse musical, portanto. De alguma forma, as canções escritas por Noel Gallagher e interpretadas pela voz agora sóbria do seu irmão Liam ganharam um novo valor para mim.

Acho que é o tipo de coisa que só pode acontecer em um concerto ao vivo, ainda mais com todo esse contexto de nostalgia oferecido pela banda inglesa. É uma celebração coletiva do que fomos, do que somos e do que podemos ser. Isso é música. Isso é arte.
And then dance if you want to dance
Please, brother, take a chance
You know they’re gonna go
Which way they wanna go
All we know is that we don’t know
How it’s gonna be
Please, brother, let it be
Life, on the other hand
Won’t make us understand
We’re all part of the masterplan”
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Que Noel e Liam Gallagher descansem, mas voltem logo
Imagina ouvir essas letras todas que eu reproduzi no post com 13 ou 14 anos, como eu tinha, e achar que entendeu. Agora imagina ouvir isso aos 40 e achar a mesma coisa.
Não que sejam muito profundas, no sentido intelectual da palavra. Noel Gallagher era um jovem simplão, sem grana e romântico quando compôs isso tudo, mas também tinha vontade de conhecer e conquistar o mundo. Tipo a gente, né não?
E é engraçado que, em uma das suas primeiras composições, ele tenha cravado com perfeição essa coisa da nostalgia da adolescência. Com certeza, lá de cima do palco os irmãos do Oasis sorriram vendo milhares de quarentões (e alguns milhares de jovens) cantarem junto com eles essas antigas certezas. Veja se você se reconhece também:
“When I was young, I thought I had my own key
I knew exactly what I wanted to be
Now I’m sure
You’ve boarded up every door
Lived in a bubble, days were never ending
Was not concerned about what life was sending
Fantasy was real
Now I know much about the way I feel
I’ll paint you the picture
‘Cause I don’t think you live round here no more
I’ve never even seen the key to the door
We only get what we will settle for
While we’re living
The dreams we have as children fade away
Now my life has turned another corner
I think it’s only best that I should warn you
Dream it while you can
Maybe someday I’ll make you understand”
Volte sempre, Oasis. E volte sempre você também, meu velho eu adolescente.

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