Chegou a hora de admitir: os chatos que não usam fones de ouvido venceram

Hoje pela manhã me sentei no Café Árabe, na avenida Faria Lima, para comer uma esfirra fechada de carne, tomar um espresso curto e ler a cópia do Estadão que eles disponibilizam aos clientes. Não se trata de um tradicional café da manhã paulistano de padoca, mas quase. Os salgados lá são muito bons, recomendo também o quibe frito.

Em uma mesa logo ao lado do caixa, porém, estava sentado um personagem inesperado que atrapalhou os meus planos matinais: um chato usando o celular sem fone de ouvido. Notei que ele havia pedido só um cafezinho, que deve ter tomado em um gole, mas fazia alguma reunião de trabalho com o áudio aberto. 

Ao menos não falava, só escutava.

Eu sentei o mais longe possível do chato, mas não teve jeito: conseguia escutar o tom preocupadíssimo do gestor do time de vendas com os números baixos do mês. “Temos que virar o jogo antes do fim do ano, pessoal, a meta é de todos”, dizia.

“Em pleno dia 12 de dezembro, amigo?”, eu respondia, mentalmente. Talvez o chato sem fone de ouvido estivesse pensando o mesmo, mas não podia responder. Ou quem sabe aquela era uma reunião surpresa, em plena sexta-feira de 12 de dezembro às 8 da manhã? Comecei a sentir uma certa empatia pelo sujeito.

Passou rápido. Bota um fone de ouvido, ô chatonildo!

“Não quero ouvir The Smiths. Você pode botar o fone de volta, ô chato?”

Tem chato sem fone de ouvido em tudo que é lado

Esse é só mais um exemplo que reforça a minha impressão de que sofremos uma grande derrota civilizatória: os chatos que não usam fones de ouvido venceram. Eles são minoria, sim, mas basta um para incomodar 10 ou 20 pessoas em volta.

No caso do Café Árabe, por exemplo, eu e outro cliente fomos embora mais rápido do que provavelmente iríamos se houvesse apenas o silêncio ou o barulho da cozinha.

Outro caso recente aconteceu comigo no Poupatempo da Sé. Se você não é de São Paulo, trata-se do lugar onde todos os residentes da cidade vão para tirar documentos e resolver pendências com Detran, Sabesp e outros. Ou seja, está sempre cheio, é estressante e o atendimento, embora até que funcione, costuma demorar bastante.

Em uma das minhas últimas idas havia, por coincidência, um sujeito enorme participando de uma reunião online no celular. Ele também não falava nada, mas todo mundo em um raio de 20 metros podia ouvir as estratégias de vendas (sim, de novo) da empresa do chato. E ninguém tinha interesse, claro.

Mais uma vez, ficou por isso mesmo, ainda que episódios de extravasamento de ira sejam razoavelmente corriqueiros no Poupatempo. Talvez, porque o cara era grande em todas as direções. Mais um chato que venceu.

Fone de ouvido no transporte público: ninguém liga mais

Outro chato corriqueiro que pode passar por incompreendido é o chato que não usa fones de ouvido no transporte público. Pode haver uma complacência, talvez até uma culpa burguesa, com a pessoa que está indo para uma jornada árdua ou voltando para a casa após um dia horrível no trabalho, mas eu não coaduno.

Geralmente o infeliz está no TikTok ou nos stories do Instagram, o que acarreta em áudios que mudam a cada 3 segundos, de acordo com a nova capacidade de atenção do ser humano médio.

Em geral é uma sequência de funk, fala do Bolsonaro, trap, outra batida de funk, fala do Lula, tecladinho de piseiro, fala de alguém xingando o Bolsonaro e o Lula, mais uma batida de funk e, por fim, algum narrador insuportável narrando um gol do Manchester City.

E isso foram só 30 segundos dos 15 minutos de viagem no trem. Sim, o meu trajeto é curto, vou checar meus privilégios.

Mais uma vez, o chato sem fone é minoria no sistema de trens e metrô. Quase todo mundo fica com a cara enfiada no próprio celular e usa AirPods genéricos. Os usuários dos sistemas públicos de transporte tendem a se autorregular.

Menos ele, o chato sem fone de ouvido. Que agora deve estar ouvindo um stand up nacional.

Nós civilizados perdemos, não adianta mais lutar

Minha tese é de que isso é resultado de não termos reagido à altura às caixas de som JBL nas praias brasileiras. Claro, surgiram algumas proibições de anos, mas o correto seria termos atirado essas malditas invenções do demônio no mar assim que surgiram.

Sem agredir os proprietários, claro, isso é coisa de gente ignorante.

Agora, está todo mundo ouvindo de tudo por todos os lados graças ao celular, esta obra-prima do cramulhão.

Não apenas padocas, mas até restaurantes viraram palco para o chato que não usa fones de ouvido. O desrespeito à vida em comunidade no transporte público chega até ao avião, onde crianças são ensinadas desde cedo que as pessoas nas cadeiras ao lado, à frente e atrás não importam.

O último território livre, para mim, era a academia. Isso até a semana passada, quando um sujeito ficou empatando a máquina de supino fazendo uma call sem fone de ouvido com colegas de trabalho.

Sim, era uma reunião do time de vendas.

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Comentários

6 respostas para “Chegou a hora de admitir: os chatos que não usam fones de ouvido venceram”

  1. Avatar de Patricia Nicolazzi Volpato
    Patricia Nicolazzi Volpato

    Grande verdade !
    Eles estão por tudo e muita vezes nem se dão conta da poluição sonora que causam.
    Com ou sem fone de ouvido falar alto no celular em lugares públicos é um cuidado que todos nós temos que ter.

  2. Avatar de Cláudia Volpato Andrade
    Cláudia Volpato Andrade

    Falou tudo! E o que quase ninguém, por incrível que pareça, fala. Eu sou a primeira a ir pra longe dos chatos sem fone de ouvido, e se não tiver como, nem pisco, peço a conta e vou embora. É realmente o cúmulo da afronta ao direito alheio.

  3. Avatar de Edite Barbosa
    Edite Barbosa

    Sabe o que eu acho, Bruno? Que tem que pedir, educadamente, que os chatos abaixem o volume ao mínimo, ou ponham o fone de ouvido. Eu sei, você vai dizer que isso é comprar briga. Mas olha, omissão é um caso sério. Sou das que prefere atuar, sempre respeitosa e civilizadamente. Se não dá certo, me retiro. Mas não perco por omissão.

    1. Avatar de Bruno Volpato

      É, de fato essa é a única forma de não decretar definitivamente a derrota. Mas eu confesso que sempre fui de fugir de confrontos, e ultimamente com as pessoas cada vez mais estressadas, isso ficou ainda mais forte. Mas quem sabe da próxima vez eu tento!

  4. Avatar de ANDRE GUILHON
    ANDRE GUILHON

    As vezes penso se andar com milhares de fones de ouvido “descartáveis” não resolveria. Tá no celular, sem fones? Toma, coloca esta merd*, infeliz!

  5. Avatar de Geraldo Ruiz Mochon
    Geraldo Ruiz Mochon

    É realmente, estamos perdendo de goleada, eles não tem nenhum pouco de semancol. Se for falar, normalmente vira confusão. O melhor é procurar ignorar. É haja saco para aguentar estes chatos de galochas. Faz parte da atualidade infelizmente.

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