
Eu vou sentir falta da vista da foto acima. É da sacada do apartamento da minha família na praia dos Ingleses, em Florianópolis. Ele está conosco desde 1996 e deve ser vendido em breve.
Já faz mais de um ano que eu não durmo uma noite por lá, nem mesmo passo um dia inteiro. Talvez eu venha a sentir saudades, portanto, da possibilidade de estar lá. Ou das memórias de outros tempos recentes, em que fui feliz olhando para o mar com a minha senhora.
E também de tempos antes de ela entrar na família, com meus pais, irmãos, sobrinhos, tios, primos e a minha avó.
Dá uma dorzinha pensar que o meu filho que vem por aí não vai jogar bola comigo no gramado, como eu fiz com meu pai, meu irmão, meu sobrinho, meus primos e amigos. Nunca engoli uma derrota no golzinho fechado, de 10 a 9, para um time de argentinos na temporada de 2000.
Por outro lado, meu filho também não vai pegar uma virose no verão mergulhando no mar impróprio para banho. O Zinga cresceu demais e a infraestrutura não acompanhou.
Mas sei lá, eu poderia botar uma piscininha de água limpa também no gramado, como fazíamos com a minha sobrinha. A alegria do meu pai brincando com os netos dá uma nostalgia boa e eu queria reviver isso, mas ele partiu também há pouco mais de um ano.
Meu pai iria amar conhecer o meu filho, já que era o melhor vovô do mundo. Nós espalhamos as cinzas dele no trecho do mar que tanto adorava, em frente ao nosso prédio. Um dia vou levar meu menino para aquele mesmo ponto, para contar sobre nossas pescarias de papa-terra nos fins de tarde e sobre as manhãs quentes de verão sob o sol que parecia menos escaldante.
Depois vou apontar para trás e dizer que nossa família viveu momentos muito felizes naquele prédio, mas que agora outra família mora no apartamento que foi nosso. A mãe dele vai estar ao lado e contar que, mesmo não gostando muito de praia, sente o coração mais quentinho por ali.
Talvez eu ligue para o zelador para ver se ele ainda trabalha lá e peça, como quem não quer nada, para entrar e bater uma bola com o meu filho naquele gramado. Daí a gente vai chegar perto do apartamento, eu vou apontar para a sacada e mostrar onde fizemos tantos churrascos, ouvimos música e contemplamos o sol nascendo e a lua brilhando.
Sobre o isolamento que passamos ali na pandemia, vou esperar ele crescer um pouco para contar.
Espero que ele se interesse pelas minhas histórias, mas acho que vai estar focado na bola e naquele gramado verdinho. Ou em voltar logo para a praia com os tios e os primos, em algum mês de abril em que a gente esteja celebrando a memória do nosso pai. Quem sabe até a vovó esteja junto.
Já o meu pai vai estar sempre lá. E nós também vamos estar sempre lá, mesmo que esse sempre seja por algumas horas uma vez ao ano.
O prédio sim vai estar sempre lá, mesmo que a gente não tenha mais um pedacinho dele. Mas ele sempre vai ter um pedacinho da nossa história. E nem vai precisar de uma daquelas placas azuis redondas da Europa, tipo “a família Nicolazzi Volpato viveu aqui”.
Porque a gente vai saber que foi feliz ali, e é o que importa. Assim como foi na praia do Gi, em Laguna, e também em Londrina, Porto Alegre e outras cidades que meus pais e irmãos moraram antes de eu chegar nesse mundão.
Assim como nessas cidades e em outros pontos de Floripa, a gente vai poder visitar o nosso predinho da praia dos Ingleses e sorrir com as memórias. Mas, de qualquer forma, essas memórias vão continuar vivendo em nós enquanto estivermos por aqui. E com certeza logo vamos criar novas, para que o meu filho um dia tenha nostalgia de algo que ainda nem temos ideia do que será.
A saudade não tem endereço fixo, pois nos acompanha para onde formos.

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