Sucesso do filme “Michael” vai gerar uma nova onda de Maicons no Brasil?

Eu não fui ver o filme do Michael Jackson, que está em cartaz nos cinemas há mais de um mês, mas conheço um monte de gente que foi e gostou. É quase uma unanimidade, mesmo que a amostra tenha pessoas de diferentes gerações. Achei interessante, mas não o suficiente para encarar uma sala lotada: vou esperar para ver em algum streaming, dando como desculpa algo relativo à gravidez da minha senhora ou à minha idade avançada.

O fato é que nunca fui um grande entusiasta do Michael Jackson — não tenho nenhum CD dele na minha coleção, por exemplo. Simplesmente nunca bateu, sei lá. Curiosamente, no entanto, minha playlist de academia tem duas versões mais barulhentas de clássicos dele: “Smooth Criminal”, do Alien Ant Farm, e “Beat It”, do Fall Out Boy. Procure aí no Spotify, você vai curtir.

E saiba que não estou nem levando em conta as controvérsias ou mesmo a sua persona crescentemente bizarra a partir do fim dos anos 1990. A questão é com a música mesmo, apesar de eu obviamente reconhecer a gigantesca relevância cultural dos seus mais de 40 anos de carreira. O homem revolucionou a música pop, as turnês mundiais, o show do intervalo do Super Bowl e, sobretudo, os videoclipes.

Como se não bastasse, ainda é responsável pela existência de quase 120 mil pessoas com o nome Maicon no Brasil.

Maicon, o filme

Entre Maicon, Maycon e Maicol, são quase 200 mil brasileiros

De acordo com o Censo 2022 do IBGE, a cada 10 mil brasileiros, 6 se chamam Maicon. Existem, ainda, mais de 50 mil Maycons e outros 20 mil compatriotas cujo nome têm pequenas variações, como Maikon, Maykon e Maicol.

O Brasil teve, inclusive, um lateral-direito titular em duas Copas do Mundo chamado Maicon. Mesmo que seu nome completo seja Maicon Douglas, com certeza uma referência ao ator americano Michael Douglas, não há dúvidas de que os Maicons pioneiros que permitiram a sua ascensão eram aqueles que homenagearam Michael Jackson.

Se você não acredita no que estou falando, dê uma olhada no gráfico abaixo, retirado diretamente do fantástico site Nomes do Brasil, do próprio IBGE:

O nome Maicon no Brasil

Perceba que entre 1950 e 1969 nasceram meia dúzia de Maicons no Brasil. O gráfico começa a subir, ainda que timidamente, nos anos 70, para explodir de vez na década seguinte. 

A carreira de Michael Jackson começou por volta de 1965, mas ele, apesar de já enfileirar hits nas paradas de sucesso, ainda era um gurizinho que cantava com os irmãos. Só em 1979 ele lançaria seu primeiro grande álbum solo, Off The Wall, que continha “Don’t Stop ‘Til You Get Enough” e “Rock with You”. Os primeiros Maicons começaram a surgir ali.

Mas a invasão Maiconiana brasileira certamente veio após o lançamento do álbum Thriller, com os clássicos “Beat It” e “Billy Jean”, em novembro de 1982. Ou seja, eu que nasci no mês seguinte, poderia ter tido esse nome glorioso, mas meus pais também não eram grandes fãs do Michael Jackson.

Anos 80 e 90 consolidaram Michael Jackson — e os Maicons

A década de 1980 seguiu estelar para o cantor, com “We are the world” e outros discos de enorme sucesso, como Bad, além dos clipes que mudaram a história da música. O Brasil parava para ver os lançamentos no Fantástico, em uma época sem internet e nem mesmo MTV.

Como mostra o gráfico, porém, o auge de nascimentos de pessoas com o nome Maicon no Brasil se deu na década seguinte. Ou seja, foi a consolidação dessa crescente popularidade, com o reforço de músicas como “Black or White” e “Heal the World”, de 1991, e de suas duas passagens pelo Brasil em 1993 e 1996. E talvez do jogador de basquete Michael Jordan.

Vale lembrar que os escândalos só começaram em meados de 1993, então quem sabe os nascimentos de Maicons tenham diminuído ainda nos anos 90.

O curioso é que a versão original e muito menos charmosa do nome, Michael, também ganhou muita popularidade no Brasil no mesmo período. A curva do gráfico do IBGE é muito parecida, embora os valores sejam quase a metade: o Brasil tem cerca de 65 mil homônimos literais ao Rei do Pop.

O nome Michael no Brasil

Uma curiosidade é que, percentualmente, os estados com mais Maicons são os três do Sul do Brasil, enquanto os três com mais Michaels são Bahia, Sergipe e Alagoas, no Nordeste. Deve ter algum tratado antropológico aí, mas limitarei minhas especulações a análises meramente de cultura pop e não de sociologia regional.

Outra curiosidade: existem cerca de 45 mil pessoas com o nome Micael no Censo do IBGE. Esse crédito, porém, deve ser dado ao piloto Michael Schumacher, já que o pico de bebês começou nos anos 1990 e explodiu nos 2000, quando ele foi dominante na Fórmula 1. Crédito também para o narrador Galvão Bueno, que adotou a pronúncia mais próxima do original alemão (algo como Mic-rael), enquanto o resto do mundo usava o mesmo Michael do Michael Jackson.

O poder da música e de seus grandes nomes

Com a popularidade da cinebiografia “Michael”, será que vem por aí uma crescente na curva do gráfico de Maicons no Brasil? Eu acho que o nome já ganhou vida própria, então não deve ter um novo pico de popularidade. Talvez a alcunha Michael ganhe força, já que hoje todo mundo tá mais literal, tomando menos liberdades criativas com os nomes dos filhos.

De qualquer forma, é legal ver, em termos de consumo alucinante de conteúdo raso, a permanência da relevância de um gigante do pop que morreu há quase 20 anos. Música boa é atemporal, mesmo que não agrade totalmente os chatos como eu. 

E da mesma forma que grandes bandas e músicos como Queen, Elton John e Ney Matogrosso aumentaram seus públicos depois de boas cinebiografias nos últimos anos, as polêmicas não devem impedir que ainda mais gente ouça todas as fases do incrível artista que foi Michael Jackson. Quem quiser chegar ao ponto de dar o nome dele a um filho terá várias opções de grafias.

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Comentários

One response to “Sucesso do filme “Michael” vai gerar uma nova onda de Maicons no Brasil?”

  1. Avatar de Claudia Volpato Andrade
    Claudia Volpato Andrade

    Muito bom texto!
    Amei os Maicons, Maycons, Maicols e a invasão maiconiana brasileira 😄😄

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