O nódulo de Schrödinger: como é ter e não ter câncer ao mesmo tempo – Parte 2

Na primeira parte desta história, escrevi sobre os primeiros dias e o diagnóstico inicial: um nódulo bem pequeno no testículo direito, com quase todas as características de benignidade, mas que estatisticamente tinha maior probabilidade de ser maligno. 

Eu o chamei de Nódulo de Schrödinger, já que precisaria fazer uma cirurgia para retirar o testículo, que então iria para análise em laboratório para, só então, eu ter certeza se era câncer ou não.

Se você não leu o primeiro post, vai lá, que eu te espero aqui com a segunda parte. Ela vai focar mais no que eu senti e pensei nos meses seguintes. “Ué, mas por que não retirou a bola de uma vez?”, você pode perguntar. Tá explicado no post anterior, no qual também já adiantei que tudo terminou bem.

E a história segue na Europa.

Eu, minha esposa e meu nódulo na Europa

Em retrospecto, a viagem em que passamos por França, Grécia, Reino Unido e Espanha em 20 dias foi uma das melhores da minha vida. Mas os primeiros dias foram muito difíceis, porque eu ainda estava muito abatido com o diagnóstico do nódulo.

Mesmo com as informações positivas, aquele pensamento que mencionei no post anterior (“vai que eu morro porque saí de férias e não me tratei mais rápido”) surgia o tempo todo na minha cabeça. Isso não me impediu de viver momentos especiais e sentir felicidade real, mas o baixo astral atacava e afetava não só a mim, como à minha senhora.

Por outro lado, nos dias que passamos em Reims, na região de Champagne, eu me emocionava com facilidade. Tenho a memória do assombro de estar andando nos 8 quilômetros de caves subterrâneas sob a cidade, onde a bebida mais icônica do mundo é envelhecida até estar pronta. Ou de estar na Catedral de Notre Dame local, onde Carlos VII foi consagrado rei da França por Joana D’Arc.

Notre Dame Reims
Eu e meu nódulo sob o sol de Champagne

Ou só de ver a lua cheia em cima da Porte du Mars, arco romano do século III, abraçado com a Manu. Eu estava sempre com os olhos lacrimejando.

Mas o medo me fazia pensar coisas absurdas, como “será que eu devo beber mais uma taça de champanhe mesmo?” Eu estava em Champagne, mas não brindava à vida.

A virada de sentimentos na Grécia

Depois de Reims, nós fomos para Atenas, na Grécia. Era a viagem dos sonhos da Manu, desde a adolescência. E foi lá, e graças a ela, que a minha cabeça deu uma boa virada. 

A bad vibe continuava me atacando periodicamente, mesmo que eu também estivesse me encantando com os vários locais históricos — e bota históricos nisso — que estávamos visitando. Eu era tipo o cachorro Droopy, dos desenhos antigos: mesmo com momentos de entusiasmo, a minha cara tava sempre meio caída.

Acho que estávamos na Ágora Antiga, com um casal de amigos muito querido, quando, depois de eu tirar fotos me divertindo no local onde Sócrates discursava, fiquei deprê pelo motivo de sempre. A Manu ficou triste comigo e, não sei se lá ou depois no hotel, falou algo que me pegou de jeito.

“O medo de morrer não pode te impedir de viver, olha onde a gente tá”, disse, com o maior amor do mundo, mas chateada com a minha cara de bunda.

Eu fiquei meio contrariado, o que era legítimo, mas fiquei pensando muito naquilo. No último dia de Atenas, subimos para a Acrópole ainda meio chateados um com o outro. Porém, quando vi ela chorando de emoção por estar vendo o Parthenon, algo que ela quis fazer a vida inteira, eu também comecei a chorar e entendi que eu tinha que viver aquilo com ela, e com o coração cheio, querendo estar ali de verdade.

A gente se abraçou, chorou juntos e a viagem a partir dali foi muito especial. Eu curti cada momento, agradecendo pela vida feliz que eu tinha.

No fim, cortamos quatro dias da viagem, diminuindo a passagem por Londres e Barcelona ao mínimo. Foi uma pena, porque ficamos na casa de grandes amigos em ambas as cidades. Mesmo o pouco tempo que tivemos foi legal, de boas conversas e risadas.

E foi uma pena, também, porque não era necessário ter voltado mais cedo. Eu não sabia lidar com a tranquilidade do meu urologista, como disse no post anterior, e isso acabou sendo um problema.

Minha relação com o médico

Ainda em Reims, eu acessei o resultado da ressonância magnética multiparamétrica. Joguei tudo no meu amigo ChatGPT e ele me tranquilizou, indicando que era o melhor dos cenários para um nódulo testicular.

Mandei mensagem por WhatsApp para o consultório do doutor. Eu queria uma avaliação do exame, visto que, naquele momento, eu ainda estava muito preocupado e achando que a morte era inevitável. De novo: hoje eu sei que não era, mas era assim que a minha mente trabalhava.

A mensagem de resposta foi bem direta: eu não precisava me preocupar, poderia aproveitar a viagem, e nós conversaríamos em uma consulta no meu retorno ao Brasil. Fiquei consternado.

Hoje, eu sei que mesmo que ele me falasse em uma ligação que estava tudo bem, talvez eu não acreditasse. O pessimismo me dominava.

Para ter mais uma opinião, acabei marcando uma consulta virtual com um especialista que era o extremo oposto do meu urologista: ativo nas redes sociais, comunicativo, com a agenda cheia e tudo mais. O agendamento era para a última semana de viagem, quando estaríamos em Londres.

No fim, eu estava com aquele primeiro retorno do médico na cabeça, de que teríamos de cancelar a viagem. Aquilo ficou incrustado no meu cérebro, que não se convencia que a situação havia mudado. Eu tinha ganhado tempo até a cirurgia, mas não tinha a capacidade de comemorar essa pequena vitória.

A volta para o Brasil

Remarcamos as passagens de volta, o que acabou permitindo que eu fizesse a consulta com o novo especialista no Brasil. O detalhe: ele era de Brasília, então seria por vídeo de qualquer forma. Pois é.

Ele falou rigorosamente a mesma coisa que o meu urologista: o prognóstico era excelente e eu poderia programar a cirurgia com calma, permitindo algum tempo de tentativas para que a minha senhora engravidasse.

Ah, sim, tinha isso, caso você tenha esquecido.

Fomos no dia seguinte à consulta com meu médico original. Foi excelente. Ele explicou que queria que conversássemos presencialmente e, não por mensagem de WhatsApp, porque era importante a Manu estar lá, justamente por nosso desejo de sermos pais.

Podíamos, assim, combinar os próximos passos, tudo com a mais absoluta segurança. Ele tinha certeza que os procedimentos adotados eram os corretos e apropriados para as características no meu nódulo.

Ele também sugeriu que eu congelasse sêmen. Afinal, estava tudo bem, mas um testículo ainda iria ser retirado, e talvez fosse necessário fazer quimioterapia, o que poderia me deixar temporariamente estéril.

Os meses seguintes de espera

Depois do retorno ao Brasil, ali por novembro, eu fui me acalmando. Comecei a conversar com amigos a respeito do nódulo, o que ajudou bastante. Passei a fazer piadas de alto nível e qualidade, como “situação escrota”, “é um saco, mas bola pra frente”, etc.

Tudo isso diminuiu o medo. Passei também por um período em que tentei seguir o método do livro O Caminho do Artista. As famosas páginas matinais, que seriam para colocar para fora de forma criativa o que quer que estivesse no meu cérebro pela manhã, acabaram virando um diário do que eu vivia e uma reconstrução do meu passado.

Não deu muito certo para mim, embora o método seja interessante, mas rendeu algumas reflexões que não surgiriam sem um papel e caneta na mão.

A principal delas foi que a gente está vivendo e morrendo todos os dias, independentemente de ter uma doença ou não. Então, o Nódulo de Schrödinger não mudava muito a minha situação. Cabia a mim escolher viver, aproveitar cada momento com as pessoas que amo.

Pensei muito no meu saudoso pai, que teve câncer no estômago por volta de 2009. Ele se curou e nunca teve recidiva, mas vivia com medo e certo de que iria morrer a qualquer momento, mesmo após os cinco anos regulamentares. Ele nunca mais se permitiu tomar uma dose de uísque ou comer frutos do mar em restaurantes, tamanho era o temor.

No fim de novembro, fui ao show do Oasis e me emocionei muito com as músicas da adolescência. Escrevi aqui no blog sobre como as letras dos irmãos Gallagher me tocaram naquela noite do Morumbi, especialmente sob o efeito de tudo o que eu estava vivendo. Se você leu o post, leia de novo sabendo o que você sabe agora.

De tudo o que aconteceu nesses meses, o que mais vou lembrar é da preocupação e do carinho das pessoas comigo.

E, sobretudo, de todo o amor e compreensão da Manu, que chorou e riu comigo em cada passo, me lembrando de viver ao máximo sempre.

Como foi a cirurgia de remoção testicular

Definimos um prazo limite para a realização da cirurgia: o começo de 2026. Então, no dia 31 de janeiro, eu passei por orquiectomia unilateral com o meu urologista.

O corte é feito na virilha, por onde sai todo o complexo testicular, incluindo a tubulação toda. No meu caso, apenas do lado direito. Quando a anestesia estava começando a fazer efeito, inclusive, eu reforcei que era apenas uma bola. E quando acordei, completamente grogue, perguntei se o testículo esquerdo tinha permanecido.

Foi colocada uma prótese de silicone, mantendo as coisas equilibradas lá embaixo. Uma curiosidade — e um alerta, dependendo da sua idade — é que o câncer testicular tem maior incidência entre os 20 e os 40 anos de idade. 

Nódulo de Schroedinger cirurgia
Eu já sem o nódulo (e uma bola) depois da cirurgia

Antes disso tudo, eu devo ter ido a um urologista duas ou três vezes na vida. A recomendação é você mesmo dar uma apalpada geral por ali de vez em quando e, caso note algum calombinho, agende uma consulta. No meu caso, foi pura sorte: o nódulo era interno, então o próprio médico disse que foi como achar uma agulha em um palheiro sem estar procurando. Então, amigos, marquem uma revisão nas partes, não dói nada.

Cerca de duas horas depois do início da cirurgia, acordei do sono profundo e fui levado a uma salinha de recuperação. Mais meia hora e eu estava em um quarto, de onde só seria liberado após fazer xixi, sinal de que estava tudo certo. 

Comi a jantinha do hospital (muito boa) e, depois de umas três horas, fui liberado para ser levado de volta para casa pela minha senhora, que ficou lá comigo o tempo todo.

Afinal, o que era o Nódulo de Schrödinger

O testículo (e seus arredores) foram enviados imediatamente para um estudo anatomopatológico e imuno-histoquímico para descobrir, afinal, o que havia ali dentro.

É bom ressaltar que a descoberta de um nódulo não é uma sentença de morte, apesar de eu ter me sentido assim por um tempo. A medicina está bem avançada, então há muitas formas de tratamento. O testículo que é mais complicado, pois não permite fazer biópsia sem retirada, já que ele é mais suscetível ao vazamento de células cancerosas.

Depois de dez dias, recebi o resultado: tratava-se de um tumor das células de Leydig. É um tipo bem raro que ataca as células responsáveis pela produção de testosterona e, em 90% dos casos, é benigno. 

Só são malignos quando metastizam, o que não ocorreu comigo. Em combinação com todos os outros achados daqueles estudos com nomes enormes, é possível cravar que eu estou curado após a cirurgia.

A vida é bonita e seguirá sendo assim por muito tempo, caso eu continue a ser brindado com muita sorte.

Epílogo: o que vem por aí após o nódulo

Se você chegou até aqui, agradeço pela leitura da minha epopeia com o Nódulo de Schrödinger. Se me apoiou de qualquer forma nesse período, agradeço mais ainda. E se está meio bravo comigo porque só descobriu tudo agora, peço desculpas pelo vacilo.

A partir de agora, preciso fazer um acompanhamento bem sossegado, sem paranoia, na linha de continuar me cuidando. Seguirei indo ao urologista, portanto.

Estou também cuidando bem da saúde, fazendo exercícios e me alimentando melhor, então já perdi alguns quilos. Isso também certamente vai continuar.

E todo esse cuidado comigo mesmo vai ser ainda mais importante a partir de agora. No começo de novembro descobrimos que a vida vai ficar ainda mais bonita: a Manu está grávida e o nosso primeiro filho vem aí.

Um dia eu vou contar que o nosso desejo de que ele viesse ao mundo desencadeou uma série de eventos muito loucos em 2025, que potencialmente permitiram que eu vivesse uma vida longa junto a ele e à mãe dele.

Obrigado desde já, meu filho. E obrigado por tudo, mãe do meu filho.

O enxoval com tema de patos já está sendo montado

P.S.: Vou registrar essa nova aventura em um novo blog que já está no ar, o Treinando para ser pai. Convido você a me acompanhar por lá também!


– Leia também:

– Compartilhe:
Receba os posts do blog toda semana

Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.