As despedidas de Ozzy Osbourne terminaram hoje, com um cortejo fúnebre pelas ruas de Birmingham, sua cidade natal na Inglaterra. Sua família parou no trajeto para depositar rosas pretas em um memorial criado por fãs na ponte Black Sabbath, nome de sua banda, onde fica um banco que também leva o nome dos criadores do heavy metal.
Foi um momento muito tocante, pela enorme dor que sua esposa de mais de 40 anos Sharon estava visivelmente sentindo. É emocionante ver um amor que dura tanto tempo, e que certamente sobreviverá ao fim de uma vida juntos. O amor de verdade é eterno.
Veja a cena:
Sharon Osbourne cries and makes sign to cheering crowd
— The Telegraph (@Telegraph) July 30, 2025
Ozzy Osbourne’s family led tributes to the rock star at his funeral procession this afternoon pic.twitter.com/7iVd4tMtZj
Foi a primeira vez que o Príncipe das Trevas me deixou triste. É claro que não foi só por causa dele, mas mais pelo luto com a passagem do meu pai, que naturalmente ganha força em momentos assim.
Faz parte, Ozzy, não se preocupe comigo.
Ozzy Osbourne emocionou nas despedidas
Na real, eu já havia me emocionado no seu show de despedida, também em Birmingham, apenas duas semanas antes de sua morte. A gente sabia que era o adeus dos palcos dele e do Black Sabbath, mas nem imaginava que seria a última vez que o veríamos.
Ozzy estava muito fragilizado, mas arrancando forças sabe-se lá de onde para entregar uma última performance memorável, em um festival em que boa parte dos maiores nomes da história do rock pesado se reuniram para homenageá-lo. E ele parecia emocionado e feliz com aquilo tudo, orgulhoso por estar ainda em frente aos seus fãs.
A apresentação com os integrantes fundadores do Black Sabbath foi muito legal. As covers que as outras bandas fizeram de canções do Ozzy e do Sabbath também. Mas o momento mais bonito do dia foi a execução de “Mama, I’m Coming Home”. Veja um trecho:
.@ozzyosbourne performs “Mama, I’m Coming Home” for the last time in Birmingham, England at Black Sabbath’s farewell show.
— Rolling Stone (@RollingStone) July 7, 2025
Read our show review: https://t.co/E30wZpXOCK pic.twitter.com/EQusnP0LXI
As cenas de um Ozzy Osbourne velhinho, sofrendo as consequências terríveis do Mal de Parkinson e regendo uma plateia de metaleiros se debulhando em lágrimas são lindas.
Há beleza no fim, ainda mais naquele momento, em que se celebrava a vida e a carreira de alguém tão culturalmente importante. E, sobretudo, de alguém que tocou milhões de pessoas em todo mundo com sua música.
Antes de fazer a gente chorar, Ozzy rendeu muitos sorrisos.
O Príncipe das Trevas era um grande palhaço
Esses sorrisos podiam ser desde aquelas caras psicóticas que Ozzy fazia nos clipes dos anos 80, quanto as risadas com suas palhaçadas em entrevistas, shows e no reality show que estreou com sua família na MTV, no começo deste século. O Morcegão era só alegria.
E é claro que eu me sentia bem depois de balançar a cabeça ouvindo “Iron Man” no meu quarto ou no meu carro, quando era adolescente. Ou quando era criança e ganhava uma partida de Rock N’ Roll Racing, no Super Nintendo, ao som de “Paranoid” sem nem mesmo saber da existência do Black Sabbath.
Infelizmente nunca vi Ozzy ao vivo, mas minha adesão definitiva ao fã-clube do Black Sabbath foi com o disco “Reunion”, de 1998. É um registro do retorno da formação original da banda, com o vocalista se juntando ao guitarrista Tony Iommy, ao baixista Geezer Butler e ao baterista Bill Ward. O show foi em, isso mesmo, Birmingham.
Só depois descobri os discos de estúdio e, em menor escala, a carreira solo de Ozzy. Era chocante a crueza do som, que condizia com os temas de terror e do oculto. Quando perguntado se o grupo era satanista, porém, Ozzy se saiu com a seguinte pérola: “nós não conseguimos conjurar nem um peido juntos, somos um bando de hippies”.
O som era realmente do demo, mas a imagem criada pelo grupo era mais teatral que qualquer outra coisa. Se alguém sentia medo, azar da pessoa.
Também por isso que digo que o Príncipe das Trevas era, na verdade, um grande palhaço. O próprio Geezer Butler escreveu isso em sua bela carta de despedida ao amigo, no jornal The Times: “ele fazia qualquer coisa para arrancar uma risada”.
Aliás, recomendo demais a autobiografia “Eu sou Ozzy”, lançada em 2009 e reeditada em 2022. É de chorar de rir com as aventuras da juventude, excessos tóxicos da fama e uma quase total incapacidade de viver uma vida adulta.
A versão para Kindle custa apenas R$ 4,90 e traz fotos sensacionais, como esta abaixo.
Ozzy Osbourne e o Black Sabbath são eternos
Aqueles metaleiros chorando no show derradeiro, porém, representam o que eu senti vendo aquelas imagens. O rock — e Ozzy dizia que o Sabbath era apenas uma banda de rock, apesar de ter criado o heavy metal — foi uma parte importante da minha vida que, como outras coisas, fui deixando de lado aos poucos.
É claro que com o tempo a gente se abre a outros estilos, mas não é isso. Por motivos óbvios, não tenho mais tempo de sentar no meu quarto e ouvir um disco inteiro de um artista que gosto. E digo no sentido de fazer só isso: ouvir as músicas.
Hoje eu escuto Black Sabbath e Ozzy Osbourne enquanto trabalho, escrevo ou, pior, levanto pesos na academia, Ou seja, enquanto estou fazendo outras coisas, não me dedicando totalmente ao rock n’ roll. Sinto que estou decepcionando os deuses (ou demônios) do metal.
Esses deuses e demônios estão indo embora e são insubstituíveis. Recentemente, me peguei ouvindo Beach Boys, depois de muito tempo, após a morte de Brian Wilson. Ouvindo, no caso, quer dizer vendo vídeos no YouTube enquanto almoçava ou tomava café.
Ao menos pude mostrar o lindo clipe da maravilhosa “God Only Knows” para a minha senhora, que curtiu e me fez sorrir.
Enfim, a morte do Ozzy Osbourne é mais um lembrete da passagem do tempo. E esse tipo de lembrete vai vindo com cada vez mais frequência, mesmo que envolvam ídolos imortais. Cabe a nós criarmos momentos especiais e que transcendem ao tempo que temos aqui, celebrando as pessoas que amamos.
Portanto, chega de lágrimas.
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