Não vou participar de bolão, mas me perdoem: ainda amo a Copa do Mundo

Estou recusando todos os convites para participar de bolões nesta Copa do Mundo. Se você está lendo esse texto, está organizando um bolão e quer me convidar, não perca seu tempo. Não é nada pessoal, eu só não quero participar.

As reações estão variando entre a descrença e a revolta. Os amigos sabem que sou um grande entusiasta de Copas do Mundo e dos debates pós-jogos do Brasil, o que hoje os jovens chamam lamentavelmente de “resenha”, portanto não entendem a minha decisão. Nos grupos de WhatsApp, já tive a minha masculinidade questionada e recebi acusações de estar priorizando o meu filho que ainda nem nasceu.

Não é nada disso. A razão é muito mais simples: preguiça. Eu não estou com saco de ter que pensar no resultado de 104 jogos, 40 a mais que na edição anterior. A fase de grupos terá dias com 5, 6 e até inacreditáveis 8 jogos, se você considerar que dois da última rodada começam à meia-noite.

Na verdade, a grande culpada pela minha ausência nos bolões é a FIFA, que avacalhou com a Copa aumentando o número de participantes de 32 para 48, forçando a criação de uma fase antes das oitavas-de-final e depois da de grupos, que não tem nem nome possível em português brasileiro. Ou alguém fala 16 avos de final?

Fracasso histórico no bolão da Copa

Outro problema é meu péssimo histórico em bolões de Copa do Mundo. Eu também me enganava com um suposto conhecimento futebolístico, criando altas expectativas de retorno financeiro com minhas apostas que no fim se revelavam muito equivocadas. Em 2018 e 2022, figurei nas últimas posições de todas as disputas, já sofrendo com o meu crescente desinteresse pelo esporte mais popular do mundo.

E como o valor para entrar nos bolões também é crescente, decidi economizar. Nesse caso é capaz de eu usar o filho como desculpa, argumentando que o enxoval saiu caro e que a criança não pode ficar sem fraldas.

Se o meu desempenho já era ruim em Copas com seleções habituais, imagina agora em 2026 com potências históricas do futebol como Curaçao, Uzbequistão, Cabo Verde, Bósnia, Haiti e Jordânia. Eu não sei absolutamente nada sobre essas equipes e seus valorosos jogadores, então no que eu basearia minhas apostas?

Um amigo, ainda lutando pela minha entrada no bolão, argumentou que bolão é para se divertir e acertar por sorte. Bom, se é assim, eu jogo na Loteca, que paga milhões de reais.

zebrinha da loteca bolão
Quem seria a zebra no jogo Equador x Curaçao?

Não entendo mais nada de futebol

Sendo justo com os potentes times citados acima, eu também não sei mais quase nada sobre seleções tradicionais como Argentina, França, Espanha, Uruguai, Holanda, Inglaterra e Alemanha. Não sou capaz de citar cinco jogadores de cada uma delas, sério mesmo.

Pior: eu nunca vi jogarem alguns dos jogadores convocados para disputar a Copa pelo Brasil. Há anos deixei de assistir às principais ligas europeias, incluindo a Champions League, e meu consumo de bola rolando ao vivo se resume a jogos esporádicos do Grêmio. No ano passado vi a Copa do Mundo de Clubes, mas mais pelo apelo com a parte de ser uma… Copa do Mundo. Rolou até post sobre a música tema aqui no blog.

Assim, não estar participando de bolões não significa que eu não esteja empolgado com mais uma edição do maior evento esportivo do planeta. As patacoadas da FIFA deram uma diminuída no entusiasmo, é verdade, mas é nesse campeonato em que se faz história no futebol. E essa parte continua me pegando.

Estou confirmado na Copa, mas não nos bolões

O que me importa é a tradição e não o bolão

Sou um grande depósito de cultura inútil sobre Copas. Sei todas as sedes, campeões, artilheiros e resultados de jogos fundamentais como aquele Escócia x Marrocos na primeira fase de 1998. E as escalações do Brasil em 1970 e 1982, entre outras, além dos elencos completos da Seleção em 1994 e 2002, afinal acredito piamente que um povo precisa conhecer a sua história.

No fim das contas, o que mexe com a minha emoção em Copas é a tradição. Por isso, fiquei revoltado com a avacalhação de botar 48 times no torneio, classificando 32 para a segunda fase. O desrespeito à história no uniforme reserva do Brasil também me emputeceu, com o agravante de botarem a imagem de um jogador de basquete na camisa do maior time de futebol de mundo. Como as pessoas não foram às ruas protestar?

Essa desgraça da FIFA ter botado o torneio em países que não ligam para futebol e com ditadores e/ou líderes autoritários nas últimas três edições é outra coisa que me dá uma bela broxada. Se você ama a Copa do Mundo como eu, a FIFA é sua inimiga número 1. E a número 2 é a CBF, como também já escrevi neste blog no post sobre os 10 anos do 7 a 1.

Mas tudo isso é deixado de lado quando a bola rola e a mística do Mundial, como chamam os atuais campeões argentinos, entra em campo. 

Histórias pessoais de Copas do Mundo

Eu ainda sofro de verdade só de lembrar da derrota para a Croácia em 2022, com os 7 jogadores brasileiros no ataque quando ganhávamos de 1 a 0 faltando 4 minutos para acabar o jogo, ou da derrota para a Bélgica em 2018, com o chute do Renato Augusto que empataria a partida saindo caprichosamente ao lado da trave.

A Copa traz memórias boas e ruins, mas que fazem parte da minha história. Em 1990, com 7 anos, vi meu irmão desolado com a derrota para a Argentina, com uma desilusão aumentada pelas eliminações traumáticas de 1982 e 1986. Em 1994, porém, lembro dele chorando de emoção após seu ídolo Taffarel defender o pênalti do italiano Massaro, encaminhando o Tetra. E o que dizer da minha mãe escondida atrás do sofá para não ver os pênaltis?

Minha família vendo a eliminação em 1990 (eu sou o de capuz)

Em 1998, vimos atônitos com meu pai o 3 a 0 da França, procurando entender o que havia acontecido com o Ronaldo. Na mesma sala, por outro lado, vimos o Penta em família, também procurando entender o Fenômeno. Foi o mesmo local em que vivemos o 7 a 1, mas esse ninguém vai entender nunca.

A Copa no Brasil, aliás, foi a primeira que vi com a minha senhora. Ela, porém, viu o vexame histórico na casa de uma amiga, onde depois a busquei e a vi chorando como poucas vezes vi, até hoje. E ainda fiz a lendária cobertura do Laranjas.

Nesse meio tempo teve a Copa de 2010, na África do Sul, em que ataquei de narrador e comentarista na gloriosa Rádio Ponto UFSC. E a de 2006, em que vi em Paris o Brasil ser eliminado pela França e, depois, bebi muita cerveja nas Fan Fests de Munique e Berlim com gente do mundo todo.

E em nenhuma dessas Copas eu ganhei um centavo sequer em bolões.

Então, que se criem novas memórias nesta Copa do Mundo de 2026. Minha aposta (sem bolão) de novo ídolo é o Endrick, tema do primeiro post deste blog. E se um dia eu puder contar para o meu filho que ele foi Hexa no meu colo, com alguns dias de vida, será a maior de todas as memórias de Copa.

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Comentários

One response to “Não vou participar de bolão, mas me perdoem: ainda amo a Copa do Mundo”

  1. Avatar de Eduardo Nicolazzi
    Eduardo Nicolazzi

    Legal Bruno!!! Tem muita história, ne?

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