Neste sábado estarei no show do Oasis, no estádio do Morumbi. Comprei ingresso para a Pista B, caso você esteja por lá e queira me dar um oi. Mas faça isso antes de a apresentação começar, por favor, ou corra o risco de me flagrar chorando em várias canções.
A maior candidata a fazer verter lágrimas heterossexuais e britânicas dos meus olhos é “Slide Away”, música do primeiro disco da banda, Definitely Maybe, lançado em 1994.
Considerada um hino pelos fãs mais raiz dos irmãos Gallagher, ela é menos conhecida que outros clássicos como “Don’t Look Back in Anger”, “Wonderwall”, “Champagne Supernova” e “Stand by Me”, que tiveram alta rotação na MTV e nas rádios nos anos 90.
Também é menos popular que outras músicas do mesmo disco, como “Live Forever”, “Supersonic”, “Cigarettes & Alcohol” e “Rock n’ Roll Star”, cantadas a plenos pulmões por quem já curtia o Oasis quando era apenas uma banda indie — embora já fossem arrogantes.
Mas então por que ela é a canção que mais quero ver e ouvir no show? E por que é tão querida pelos seguidores de Noel e Liam Gallagher?
Uma prova do carinho dos fãs por “Slide Away” é que foi ela a escolhida para ser o primeiro single digital da turnê de reunião. O áudio foi retirado do primeiro show da Live ‘25 Tour, realizado em Cardiff, no País de Gales. Vou colocar aí embaixo para você ouvir enquanto lê o post, mas recomendo degustar depois também a versão original, que vai estar lá no final.
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“Slide Away” é um hino sobre um amor inocente
Discos de estreia de rock costumam ser os mais verdadeiros em termos de temas. As composições são de antes do artista em questão ficar milionário, ter bajuladores por todos os lados e se entupir de drogas que alteram a percepção da realidade.
Assim, as letras refletem falta de grana, fracassos na noite e amores não correspondidos. Afinal, roqueiros costumam ser pobres, feios e desagradáveis antes da fama.
“Slide Away”, porém, é sobre outro assunto comum dos primeiros discos: um amor inocente, intenso e verdadeiro, de antes que a esbórnia e a luxúria tomem conta e o sucesso impossibilite relacionamentos normais. Estrelas da música deixam de ser pessoas normais, afinal.
Veja a letra, que belezura (slide way em português quer dizer algo como “se deixe levar”):
Slide away and give it all you’ve got
My today fell in from the top
I dream of you and all the things you say
I wonder where you are now?
Hold me down all the world’s asleep
I need you now you’ve knocked me off my feet
I dream of you and we talk of growing old
But you said please don’t
Slide in baby together we’ll fly
I’ve tried praying but I don’t know what you’re saying to me
Now that you’re mine
We’ll find a way
Of chasing the sun
Let me be the one who shines with you
In the morning we don’t know what to do
We’re two of a kind
We’ll find a way
To do what we’ve done
Let me be the one who shines with you
And we can slide away
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Como foi a composição e a gravação da música
O compositor de “Slide Away” — e de 95% das músicas do Oasis — é Noel Gallagher. Como muitos outros músicos fazem, o guitarrista tem uma explicação transcendental para sua criação. Ele garante que a canção simplesmente baixou nele quando ganhou uma Gibson Les Paul de outro guitarrista: Johnny Marr, dos Smiths.
E, reforçando a minha tese do amor ingênuo, Noel escreveu a letra para uma de suas primeiras namoradas, Louise Jones. De acordo com uma biografia, quando o relacionamento acabou, ele acreditava que nunca iria superar a perda da moça.
Ele superou, ao menos liricamente, já que “Wonderwall”, o maior sucesso do Oasis, lançado em 1995, é sobre uma namorada posterior, futura esposa e atual (primeira) ex-mulher, Meg Matthews. Mas não nos deixemos levar pelo cinismo, estamos falando de amor.
“Slide Away” tem, para mim, a melhor performance vocal de Liam Gallagher. O irmão mais novo, que é o vocalista do Oasis, interpretou com paixão os sentimentos, as boas memórias e os sofrimentos do mais velho, gritando do fundo dos pulmões o belo refrão “Agora que você é minha, nós vamos dar um jeito de perseguir o sol. / Então me deixe ser a pessoa que brilha com você, e de manhã a gente nem vai saber o que fazer.”.
Essa é daquelas que bate fundo na alma, né não?
E Noel, o compositor, não resiste e aparece para cantar a parte final da música, com os versos a seguir defendidos com o desespero de quem se lembra de um grande amor perdido:
I don’t know, I don’t care
All I know is you can take me there
Nas versões ao vivo, Noel ainda segue cantando “take me there” várias vezes até o encerramento, em uma sofrência digna de um velho sertanejo brasileiro. Ouça a versão original:
Em termos de sonoridade, “Slide Away” é um registro de um Oasis ainda meio cru
Outra coisa legal de “Slide Away” é que ela soa meio diferente das outras músicas do disco Definitely Maybe. E não é à toa: é a única que sobrou do registro das primeiras gravações. Todas as outras 10 canções foram regravadas e melhor trabalhadas em outro estúdio, porque a banda não havia gostado do resultado inicial.
Assim, ela parece ter uma sonoridade mais crua, o que fortalece o sentimento de uma música mais real, em que o Oasis entrega uma performance mais próxima do que Noel queria quando a compôs. Ao menos eu acho isso.
Curiosamente, demorei a me entusiasmar com “Slide Away”. Talvez por ela estar no final de um CD repleto de clássicos, às vezes eu não chegava até lá na audição. E essa diferença sonora talvez incomodasse a minha versão mais jovem e burra.
Ou talvez, e mais provavelmente, eu ainda não tivesse vivido um grande amor para berrar a plenos pulmões, assim com Liam cantando por Noel, “LET ME BE THE ONE THAT SHINES WITH YOU AND WE CAN SLIDE AWAY”.
Bom, estarei cantando no show do Oasis deste sábado no Morumbi. Se eu estiver chorando, me deixe.

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